Em Outubro de 2014, sentada vendo TV e “cutucando” uns cravinhos pelo pescoço e colo, percebi que tinha um caroço na minha mama esquerda.Era bem palpável e bem na parte superior. Achei estranho e pensei em ir a ginecologista para ver o que era. A vida é corrida e as vezes deixamos as coisas um pouco para depois então em novembro fui á médica. Ela analisou, pediu um ultrassom, mas me disse que não deveria ser nada, afinal de contassó tinha 28 anos de idade. Fui para a casa, marquei o ultrassom, fiz e nele só dava para ver a área afetada, e não o que era realmente aquele nódulo.Mostrei a ela o exame, e como não era esclarecedor, ela me mandou para a mastologista que, pediu para que eu repetisse o ultrassom, fizesse uma mamografia e uma biópsia com agulha grossa, guiada por ultrassonografia.Aquilo me deixou preocupada, mas não atordoada… afinal de contas eu era muito nova para pensar que pudesse ser alguma doença grave.Antes de sair do consultório perguntei a ela: “Dra. Kerstin, se fosse um câncer, eu sentiria dor? Para minha surpresa ela disse que não, que infelizmente nem todo câncer dói e que se doesse, talvez muitas pessoas procurariam um médico com mais agilidade quando sentisse algum caroço. Fui embora com aquilo na cabeça pois, nunca senti nenhuma dor.Saímos de férias, esqueci um pouco aquele assunto… e no começo de 2015 retomei os exames.Os médicos que realizavam os exames ficavam minutos e minutos olhando o ultrassom, diziam que achavam estranho o formato, mas que era inconclusivo.Fiz a mamografia, resultado inconclusivo. Fiz a biópsia. Era o limite para descobrir o que realmente estava acontecendo, dali não daria para fugir.Dia 17 de Março de 2015, eu e meu marido completávamos 8 anos de casados. Era para ser um dia bom, mas foi o dia em que pegamos o resultado da biópsia no laboratório. Era uma quarta feira e eu só tinha consulta com a médica na outra segunda então, eu mesma abri o resultado: CARCINOMA LOBULAR INVASOR DA MAMA.Achei estranho o termo carcinoma… e ainda mais invasor!?? Fui olhar no Google, o que era esse tal Carcinoma… então foi surreal! CÂNCER! Meu esposo dizia: “Não pode ser PRI, vamospesquisar melhor”… Mas não adiantava, era realmente câncer. Eu caí literalmente no chão da sala…chorava, chorava … e ele mais ainda! Foi estarrecedor, assustador. Pedi a ele que não me deixasse morrer, mesmo sabendo que o poder não estava em suas mãos… Ele chorava e sofria e me perguntava porque Deus não tinha permitido que fosse com ele. Foi aí, mais quenunca, que percebi o que era amar verdadeiramente o outro. Eu sofria não mais por minha dor, mas pela dor que ele sentia em me olhar.Ficamos dias sem dormir direito… a família mal digeria a notícia, pais, tios, primos, amigos… choravam a nossa dor.Foi até que chegou o dia da consulta com a mastologista. Fui na esperança de que ela me dissesse que eu estava ficando louca, que o resultado do google não era correto mas, não foi assim. Era câncer sim, e precisávamos aceitar aquilo. A médica nos acalmou, nos disse tudo que eu iria passar…Fomos pra casa, e aí sim conseguimos dormir. Era duro mas era real e desde então coloquei em meu coração que JAMAIS iria questionar a Deus o porque daquilo tudo e em nenhum dia dessa luta, eu iria reclamar de minha situação.No dia 23 de Abril de 2015 eu entrava no bloco cirúrgico para retirar o tumor. A cirurgia e o pós foram de muito sucesso, e apenas o tumor foi retirado.Minha mama permanece intacta e hoje levo em meu peito uma marca de vitória. Hoje, já completei o ciclo de 4 quimios vermelhas e 6 brancas. Serão no total de 12 brancas, e são semanais. O pior da quimio já passou. Nunca abandonei os exercícios físicos, o que me ajudou muito na minha recuperação.Tinha um cabelão que cuidava com muito zelo … a queda do cabelo foi a pior parte. É assustador. Na segunda sessão da quimio resolvi passar a máquina e me senti aliviada.Encarar o espelho no começo é muito difícil mas não impossível. Comecei a usar lenços mas não me sentia tão á vontade … e foi com a ajuda de amigos e meu esposo que decidi assumir a careca. Me sinto livre por mais que as pessoas na rua virem o pescoço para olhar. Mas me sinto eu mesma e é isso que importa.Comecei a ver a vida com outros olhos, outras prioridades. A gente muda, tem que mudar. E não adianta enfiar debaixo do cobertor e viver no sofrimento pra sempre,a dor deve ser sentida por um momento mas não pode tomar conta de você. A doença não vai embora com cara feia, reclamações e murmúrios… então resolvi encarar com alegria e perseverança.



