Vivi 31 anos felizes. Conquistei muitas coisas. Com muito esforço me formei em direito aos 24 anos e me tornei advogada, profissão que abracei e que me orgulho. Constituí minha família ao lado do meu marido, namorado desde os 18 anos e que me deu dois filhos lindos. Minha saúde estava ótima. Trabalhava, cuidava da casa, dos filhos, do marido, tinha minha social agitada e estava feliz.
E aí, do nada, minha vida virou de ponta cabeça.
Tudo começou com uma dorzinha chata e persistente no abdômen, em setembro 2015. Eu, na minha inocência, achava que tinha apenas exagerado nos abdominais na academia. A dor continuou, aumentou e veio acompanhada de enjoo e vômitos. Desconfiei de uma gravidez, apesar de ter colocado o Mirena um mês antes. Eu e meu marido havíamos definindo que por enquanto não teríamos mais filhos. Não era um ponto final, mas uma vírgula. Bom, diante de uma possível nova gestação, mesmo não planejada, eu estava feliz e torcendo para que fosse verdade.
Fui ao ginecologista e o Mirena não havia falhado. Não havia bebê e nenhum problema ginecológico. Saí do consultório com algumas requisições de exames, telefone de outro médico, um pouco decepcionada (por não estar grávida) e o preocupada (por não saber o que tinha).
A partir desse momento iniciei uma saga. Consultas, pronto socorro, dores, noites em claro, dúvidas, exames, exames, exames, enjoos, vômitos e preocupação.
Até que após uma endoscopia, o médico abriu minha biopsia e estava escrito NEOPLASIA MALIGNA…
Como assim? Passaram muitos pensamentos ruins pela minha cabeça, senti muito medo, vi a angústia do meu marido, tive vontade de fugir e, por incrível que pareça de agradecer também. Era comigo. Nada de mal havia acontecido com meus filhos e isso já era um alento ao meu coração.
A minha biópsia não definia o tipo de câncer. Depois de quinze dias, tive o resultado: Linfoma não-Hodgkin.
Era a opção menos pior. Escapei de uma cirurgia da qual perderia grande parte do estômago ou dependendo da situação todo o estômago.
Assim, comecei o tratamento contra o câncer, inicialmente a indicação seria de 6 a 8 sessões de quimioterapia, mas depois meu médico reduziu e fiz 4 sessões.
A quimioterapia é um tratamento penoso e difícil. A minha primeira sessão foi a pior de todas e achei que não iria conseguir continuar. Graças a Deus passou e eu vi que poderia seguir a minha rotina, mesmo com certas limitações, durante o tratamento.
E o mais importante, eu tinha certeza que iria superar e que venceria a doença. Além disso, fiz uma escolha: passaria pelo tratamento da melhor maneira possível. Se tivesse que chorar, choraria, mas iria sorrir muito mais. Tinha em mente que meus filhos deveriam tirar uma lição proveitosa desse obstáculo que atravessou nossa família.
O apoio que tive da família e dos amigos foi essencial. Meu marido raspou o cabelo também e sempre me olhou da mesma maneira, inclusive careca.
Os cabelos são um capítulo a parte. Eu sofri quando cortei curto, muito mais do que quando raspei. Na verdade para raspar foi super tranquilo, nada de cena de novela à La Carolina Dieckmann.
Com o passar do tratamento desapeguei totalmente do cabelo, ou melhor da falta dele. Uso lenços e turbantes e tudo certo. Claro que sinto saudades do cabelão, mas isso é muito pequeno perto de ganhar a minha vida de volta.
Depois de 4 ciclos de quimioterapia, fiz uma nova endoscopia e o resultado da biópsia foi o melhor de todos. Nada de doença. Nunca me senti tão feliz, tão agradecida por tudo.
Agora faltam as sessões de radioterapia, que serão feitas com um sorriso no rosto e com cabeça colorida.
Eu jamais aprenderia certas coisas sem passar por esta doença. Minha vida é muito mais colorida e muito mais aproveitada agora. Meus 31 anos me pregou uma peça, me fez várias surpresas me dando uma doença, uma luta, uma vontade incrível de vencer e uma vida ainda melhor que antes. Porque se antes eu já era feliz e grata, hoje eu tenho muito mais motivos para ser feliz e ter gratidão.
O câncer leva, mas traz também. Nesse curto período já conheci tanta gente especial, já vi a minha doença unir tanto a minha família, já vi meu marido se apaixonar ainda mais por mim, já vi meus filhos aprenderem que a vida não são só flores, já vi que sou mais forte do que eu mesma acreditava. Por isso, o tratamento para a cura além de todos os efeitos colaterais ruins (que não são poucos!), tem os efeitos colaterais bons! Basta estarmos atentos e preparados para perceber isso!
