A Cat Daiana Machado nos enviou esse textão lindo e cheio de inspiração que ela escreveu durante o tratamento da quimio, rádio e mastectomia total!!

Ela fala sobre sentimentos, medos a descoberta do câncer e sobre valorizar a vida!



Sabemos que a morte pode acontecer a qualquer instante, em uma fração de segundos, através de um acidente banal, uma violência na rua ou até mesmo o famoso (e até esperado) fim do mundo.
Crescemos e vivemos sabendo que esse dia chega para todos nós, de uma forma ou de outra. Mas aprendemos a viver com esse fato e seguir nossas vidas torcendo sempre pelo melhor, fazendo nossos planos para o futuro.
Ah o futuro…
Mas saber que a morte é uma possibilidade é muito diferente de sentir ela quase na pele.
Eu senti.
E posso afirmar que sentir foi muito pior do que eu podia imaginar que seria.
Naquele momento o medo tomou conta e me vi tentando agarrar a vida de todas as formas, como se fosse algo palpável, que caberia na mão e que se eu me negasse a soltar simplesmente continuaria comigo.
A vida é minha e vai continuar comigo, eu pensei em negação.
Mas as coisas não são bem assim.
Naqueles dias entre diagnóstico e início do tratamento, sim parece clichê eu sei, mas minha vida inteira realmente passou na minha cabeça. Senti como se tudo o que tinha acontecido até ali tivesse sido um sonho que passou tão rápido e que tinha sido uma preparação para um futuro. Um futuro cheio de planos, cheio de sonhos, que eu tinha tanta certeza que viria e que, de uma hora, poderia ser arrancado de mim sem nenhum aviso prévio.
Como assim acabou?
A minha vida foi isso?
E a minha família? E os lugares que ainda quero conhecer? E os filhos que ainda quero ter?
Naquele turbilhão de sentimentos, lembro como se fosse hoje do primeiro momento em que eu parei e conversei com Deus.
Foi uma conversa longa, difícil e certamente muito diferente das conversas que costumávamos ter.
Essa conversa tinha o objetivo de pedir pela minha vida, mas enquanto eu pedia não parava de pensar nas várias pessoas que estiveram em situações semelhantes a minha e que seus pedidos não foram ouvidos. Então em meio a oração eu pensava: se os pedidos deles não foram ouvido, por que o meu seria? O que me faz ser diferente? O que me faz ser mais merecedora? O que me faz ser especial?
Não encontrei um porquê.
Tola de mim. Eu não era tão especial assim, pelo menos não mais do que qualquer outra pessoa.
Então sem que eu me desse conta, minha oração se tornou uma mistura de fé, medo e desesperança, por mais estranho que essa combinação possa parecer.
Me vi dizendo: Deus, por favor não me entenda mal, não quero dizer que a minha vida deve ser poupada enquanto tantas se vão ou que eu mereça mais do que elas. Só sei que eu quero ficar aqui, por favor, só me deixa ficar!
E assim nós continuamos conversando… por horas.
Eu confusa tentando me fazer entender em meio a um turbilhão de pensamentos e Ele (imagino) tentando traduzir o que eu dizia.
Naquele dia Ele (através do meu próprio pensamento) me perguntou: Por que você quer tanto ficar? O que você tanto quer fazer por aí?
E essa pergunta foi como um soco. Eu não estava preparada para essa conversa.
Demorou alguns instantes, entre sentir e pensar, e agora sim tinha certeza do que diria e respondi com muita firmeza: eu quero simplesmente viver!
A beleza da vida me saltou aos olhos como um sopro e era nela que eu queria me agarrar. Dar risada com os amigos, ver um filme com a família, ler um livro, tomar banho de mar, sorrir, dançar, sentir o vento no rosto e principalmente, acordar todos os dias tendo a chance de fazer tudo isso de novo. E de novo. E de novo.
Sim, era isso que eu queria.
Hoje eu estou no final do tratamento contra o câncer.
Deus entendeu aquela minha oração confusa e nós fizemos um acordo, ele me daria mais tempo e eu faria o meu melhor com essa segunda chance.
E o motivo de escrever esse texto? Nunca esquecer de fazer a minha parte nesse acordo que eu apelidei de vida.
